Mosaico de instantes é a segunda exposição de uma série que se inicia na Casa Gerson Pinheiro com o nome de “Sob o teto do tempo”. A ideia é levar artistas contemporâneos para conversar com as obras do acervo.
No dia 11 de setembro de 2024, fizemos uma conversa de artistas da exposição “Mosaico de Instantes”, o nome alusivo aos nossos modos de existir diversos, aos movimentos que fazem com que o trabalho seja lido e apreciado de maneiras distintas, visto o tempo ser um dos critérios para existir. Estar próximo ao trabalho e aos conteúdos disseminados no senso comum que habitam nossa linguagem, faz com que criemos discursos, velhos também, porque dançam conforme o repertório cultural.
Os trabalhos de arte não repetem mundos, mas criam mundos. Os artistas vivem num momento histórico sempre muito próprio e isso aparece na visualidade de suas obras. Não como ilustração de um tempo, mas como uma força propositiva frente aos desafios que sentem na própria carne, produzindo diferenças que são fruídas pelo espectador.
Na Casa do artista Gerson Pinheiro temos a primeira sala ambientada com os autorretratados do pintor Gerson Pinheiro, eis que surge em meio a eles, o de Regina Pouchain, poeta visual que faz poesia com imagens. As palavras não entram e quando entram nos poemas atuam como signos, vestígios das coisas do mundo.
A cabeça pedra de Regina num mundo niilista que descaracteriza o rosto como anteparo do espírito e da humanização, parece dizer muita mais sobre a aridez dos nossos tempos do que qualquer outra mensagem ou evento.
O movimento da vida na arte de visualidade neoconcreta de Mario Ferrer roda em cima da base duchampiana. Chove associações e imputs em direção ao modo contínuo com o qual o mundo e a história se condensam e se misturam em apreensões sensíveis.
Na sala dos verdes remissivos ao “Caminho de Swann”, primeiro livro da coletânea “Em busca do Tempo Perdido” de Michel Proust, a artista Laura faz a perspectiva com a ausência da fita crepe. Um comentário contemporâneo ao modelo de perspectiva que o professor Gerson era catedrático, significa dizer que os desdobramentos da arte criam comportamentos estéticos no próprio fazer e ver.
Em uma instalação de brindes com taças vermelhas, Katia Politzer celebra a Casa do artista Gerson Pinheiro em sua coragem de existir para mostrar que lugares de pertencimento vivificam a memória da arte num tempo de pouco lastro e atenção. Katia derrama uma grande língua na instalativa apreensão de estarmos sempre brindando, nas várias culturas, as ocasiões da vida e da arte.
Quando um trabalho de arte entra numa exposição, o enquadramento curatorial envolve a visualidade da obra e o que “aparece” são as relações entre os demais trabalhos. Diferentemente do outro autorretrato, Adriana Nataloni deixa aparecer o corpo. Fruto de uma performance da artista, a fotografia foge dos juízes mais simples, porque é tomada pela surpresa.
No comportamento visto como a artista quer, a montanha e o rasgo são mais do que femininos, porém na expografia a curadora opta por mostrar a boca como força do universo criado por Gerson em seu ateliê. Em todas os quadros pintados, as mulheres aparecem com o batom vermelho! Uma pincelada vermelha também é significativa como lugar. A pintura constitui lugar de marcar um ponto de chamamento para o olho desviar. Vivendo desses desvios!
A poética de um artista é construída de vários caminhos entrecruzados, daí a fala consciente do artista pontuar com clareza esses lugares sem que o tempo seja necessariamente o ponto de partida ou chegada. A frontalidade do nu de Gerson Pinheiro, quase sempre a modelo está de pé, contrasta com o comportamento dado no desenho de Ana Maria Moura. Ana que conheceu Gerson como diretor da ENBA “aproveita” a ocasião do vermelho da folha para trazer aos nossos corações a beleza do corpo feminino. Sai o naturalismo, entra a poética e o romantismo.
Vermelhos também adornam nacionalidades como no caso da flor da artista Vera. Beleza, determinação, desenvoltura, tudo envolve o corpo, a vestimenta, o entorno, dá dramaticidade, remete à instalação da Katia Politzer e a oração da Dorys Daher, na apreensão da cultura como signo visual também lido pelo espectador.
O vermelho em Ana Maria Moura e Vera Lucs:
E se a linha vermelha de Dorys fosse serializada? Enforcariam outros sentidos? Admoestariam outros significantes? Só um trabalho costuma ter o silêncio como chamamento ativo, daí Oração ser divisória, alongamento, bravata. Se fosse duas ou mais, as referências se traduziriam em direção ao compasso de espera que vivenciamos num mundo sem direção. A linha vermelha de Dorys antes de dividir, incorpora uma rede de significantes que adentram pelo espaço expositivo, unindo os trabalhos no espaço, num ateliê fictício no qual Gerson pintava as mulheres.
O bordado de Gaby de Aragão encanta e todos ficam mobilizados na conversa; ele encanta a Casa de um pintor que foi também um arquiteto moderno. Gerson Pinheiro fez o primeiro edifício moderno no País. Nesse trabalho vemos a arquitetura moderna, a natureza morta, o mobiliário nas linhas coloridas que Gaby traz como bombons para que possamos degustar. Ela une num só quadro, todas as temáticas que Gerson pensa separadamente.
Estar vivo, presença, e caminhar em direção à morte é uma das questões mais difíceis que enfrentamos, daí as representações serem um começo para negociar com a existência. Reitchel Komch:
MarQo mobiliza a estética da pintura numa nebulosidade sem fim, o tempo apaga e corrói tudo. O apagamento é uma das visualidades mais essenciais no mundo niilista como o nosso. MarQo ascende uma luminosidade ímpar na exposição que conjuga os quereres, vê-se uma possível mulher que se prepara para entrar no mundo da vida serenamente. Armada de instrumentos para a luta que está diante dela. Como a Monalisa, ela se desenha como a porta parada em frente ao front. Não há leituras fáceis quando as imagens desmaterializam os sonhos.
Maria Helena com seus vestígios de coisas, não se preocupa com restauro. Os rasgos do tempo nas pinturas sinalizam que precisamos restaurar a memória da arte para os novas gerações. Maria Helena pontua suavemente o espaço quando suspende as linhas e os pedaços na arquitetura. Nem toda geometria é necessária quando a poética desconstrói a longa tradição ocidental.
Beatriz Calmon traz para a Casa uma montanha de Paty, no caminho do ciclo do ouro, e as formas rochosas são a emblemática força do pensamento
decolonial. A matéria da civilização brasileira, a colonização e os atores sociais envolvidos que até hoje são espelhos que podem mostrar como nos organizamos como sociedade. Beatriz Calmon intervém na Montanha e traz para o espaço expositivo a brutalidade da forma no tempo.
A palavra induz a intepretação. O sumo suco da arte é misturar matérias distintas plasmando um universo que não precisa ser entendido como uma
estória a ser contada. Ana Luiza Mello cria um trabalho que poderia ser a capa de um livro ou um outdoor imenso, ou estar em qualquer lugar entre moda, literatura e colagem. Os vários signos que manipula podem ser pegadas falsas na fruição estética, o que importa é que mais do que lugares para habitar, a obra se torna uma imagem.
