A Casa do artista Gerson Pinheiro apresenta a segunda coletiva de artistas contemporâneos, intitulada “Mosaico de instantes”, logo após a exposição “Sob o Teto do tempo”. As duas exposições foram pensadas como faces de um mesmo espelho (passado e presente), deixando o futuro por conta dos desdobramentos da Casa que conta com 180 obras do pintor e arquiteto Gerson Pinheiro.
Num primeiro momento, os trabalhos dos artistas dialogaram com o passado, as formas e os motivos de Gerson: autorretrato com o trabalho de Beth Ferrante, a natureza morta com a fruteira de Thelma Innecco, as flores da Laura Figueiredo-Brandt, a arquitetura com Taisa Collaço, a marinha com Sonia Wysard e o barco da Vera Lucs. Aline Reis e Ana Paula Souza compunham com a escrita e a natureza da arte uma conversa direta com a construção do trabalho do dono da casa. Uma Madona no corredor, junto aos trabalhos de cunho transcende, evidencia a dupla homenagem do
artista e aluno Carlomagno ao seu mestre. Da visualidade e do título do trabalho de Marcelo Palmar Rezende “Matisse para Xangô” vem a inspiração para a expografia da segunda exposição, assim com a obra “Oração” de Dorys Daher, ou mesmo nas várias mulheres expostas diante do pintor,
entre elas a de sombrinha diante do mar de Selma Jacob.
Eis que “Sob o Teto” se mantém como imagem, embora uma virada temporal se anuncie: a primeira sala torna-se o lugar para mostrar a sutileza na aproximação das coisas do tempo com o trabalho de Maria Helena Messeder e a dramaticidade se mantém na instalação de Katia Politzer com taças vermelhas, quebradas e sobrepostas que envolvem o espectador num mosaico de instantes como numa memória em flashes, depois de uma grande tempestade ou festa.
Antes de adentrar ao ateliê fictício que compõe a sala onde quase todos os artistas estão, temos as pedras de Beatriz Calmon, esbarrar nelas é convocar a realidade da colonização e da fundação da nossa sociedade, que lado a lado com o imaginário, nos força a pensar uma curadoria sempre como uma historiografia. Num outro polo, Laura Bonfá Burnier integra todos os horizontes numa linha: a natureza em evidência no presente, os vários verdes num caminho que não é só de Swann como de todos os presentes. Essas etapas todas estão no entorno de um ateliê Matisseano que mostra como hoje temos no corpo, o anteparo teórico e visual, para presentificar a arte na vida.
A mulher nua no vermelho de Ana Maria Moura, a boca de Adriana Nataloni, o autorretrato de Regina Pouchain, a escultura movente de Mario Ferrer, a imagem desmaterializada de MarQo Rocha, a mulher ordenada pela flor na cabeça de Vera Lucs, a Imperatriz na seda de Ana Luiza Mello, a capilaridade das esculturas de Dorys Daher navegam sem rumo no barquinho vermelho de Reitchel Komch, sentam-se na cadeira de Gaby de Aragão como num site psicanalítico, diante da arquitetura de BH, das flores vivas de crochê contrapondo às naturezas mortas dos tempos passados.
A contemplação vivifica o instante, torna longínquo o espaço da cultura, seus signos mais sutis, portanto habitar a casa do artista Gerson Pinheiro é adentrar em várias temporalidades: suspensas taças, chão de tintas, obras que aquecem o corpo no vermelho e o esfriam nos verdes. As narrativas estão por toda à parte.
Aline Reis
Curadora

A exposição Mosaico de Instantes aconteceu na Casa do Artista Gerson Pinheiro, em Ipanema – Rio de Janeiro, de 21 agosto – 30 set
de 2024.
