Stella Damasceno, a musa inspiradora de Gerson Pinheiro

Na História da Arte muitas figuras femininas foram consideradas musas, elas eram pessoas que inspiraram artistas por sua personalidade, relação afetiva, inteligência, beleza ou importância simbólica. Algumas delas são tão famosas na história quanto as próprias obras de arte. Muitas dessas pessoas se tornaram, para os artistas, símbolos de amor, desejo, espiritualidade e criatividade, e foram a inspiração para que eles pudessem transformar sentimentos pessoais em obras de arte. Engana-se quem pensa que elas eram apenas figuras bonitas! Muitas das musas eram, elas mesmas, artistas, intelectuais, colaboradoras e tiveram papéis ativos na criação das obras de arte.

Alguns exemplos mais famosos são a musa de Dante Alighieri, Beatrice Portinari, grande inspiração amorosa e espiritual para ele, especialmente em A Divina Comédia, onde ela representa uma espécie de guia para a elevação espiritual; a de Sandro Botticelli, Simonetta Vespucci, que é considerada uma das musas do Renascimento florentino, frequentemente associada a figuras como a Vênus de O Nascimento de Vênus; e a de  Leonardo da Vinci, Lisa Gherardini, tradicionalmente identificada como a modelo de Mona Lisa, e mais do que uma musa no sentido romântico, tornou-se um dos rostos mais célebres da história da pintura.

Para Gerson Pinheiro, sua grande musa inspiradora foi, desde o instante em que a viu pela primeira vez até seu último suspiro, Stella Damasceno Pinheiro. Muito provavelmente, foi sob o sopro de inspiração de Stella que o artista criou a maior parte de sua produção artística, e sua figura habita as telas dele como uma presença constante e indissociável de sua produção. Desde retratos da esposa ao uso de sua imagem como modelo para representar diferentes cenas e personagens, Stella está presente na obra de Gerson Pinheiro ao longo de toda a sua trajetória. 

Stella representava para Gerson muito mais do que o ideal de beleza tão buscado pelos artistas. Nela, ele encontrava sensibilidade, força, inteligência e afeto. Era também seu porto seguro, onde ele tinha acolhimento, podia conversar e compartilhar bons momentos.

Gerson conheceu Stella em 1934, foi amor à primeira vista ao vê-la sentada em um bonde. Sem hesitar, escreveu seu nome e número de telefone em um pequeno pedaço de papel e, discretamente, entregou-o à moça. Stella, ao chegar em casa e sendo animada pelas irmãs, resolveu telefonar para o rapaz misterioso. Ao atender, Gerson prontamente perguntou do outro lado do fio: “É a moça do bonde?” Stella confirmou. Quando ele manifestou o desejo de encontrá-la, ela ponderou que morava muito longe. Mas, entre os traços que marcavam a personalidade de Gerson, estavam a determinação e o temperamento apaixonado. Sua resposta foi imediata: “Para ver você – ele disse – vou até o fim do mundo!”. No mesmo dia, à tarde, se encontraram em uma pracinha da Tijuca. o rapaz chegou com uma máquina fotográfica e registrou aquele rosto que o havia enfeitiçado para sempre (Pinheiro, 2000, p.23).

Em 1942, já como catedrático interino da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), Gerson casa-se com Stella. Nos primeiros tempos, a família vivia em duas casas alugadas na mesma vila da Rua Prudente de Moraes. Mas era urgente fincar raízes, consolidar a carreira, ampliar os recursos e conquistar novas posições profissionais. Movido pelo desejo de oferecer à família — e especialmente a Stella, para quem a maternidade era o maior dos sonhos — cada vez mais segurança, conforto e perspectivas de futuro, Gerson decide investir na construção de um edifício que pudesse abrigar todos os seus afetos e, assim, ele projeta e ergue sua casa, um edifício de três andares na Rua Barão de Jaguaripe (onde hoje funciona a Casa de Cultura Gerson Pinheiro) (Pinheiro, 2000, p.24).

Mesmo quando estavam afastados, durante o período em que Gerson viajou para o exterior, depois de viajar à Argentina e ao Uruguai em missão de intercâmbio universitário, licenciado pelas respectivas Congregações das escolas em que era catedrático, e depois para a Europa, em 1951, eles não ficaram uma semana sem manter contato e trocavam cartas declarando saudades quase que diariamente.

Após algum tempo em que Gerson já estava na França, Stella viajou para juntar-se a ele, e saíram de carro em direção aos grandes centros culturais da Europa, visitando Holanda, Bélgica, Suíça, Alemanha, Áustria, Espanha, Itália, Inglaterra e Portugal. Lá, Stella, como uma pessoa muito culta e interessada pelas artes, também fez suas visitas aos principais centros culturais dos países que visitaram.

A beleza retratada por Gerson em sua arte é a beleza clássica, canonicamente reconhecida pelas academias de Belas Artes, e é através dela que ele representa sua grande musa. Segundo ele, Stella seria, por si mesma, o ideal de beleza feminino e, com muito amor e cuidado, fazia questão de representá-la dessa forma. Na pintura, a beleza clássica está associada à harmonia, à proporção, ao equilíbrio e à idealização das formas humanas. Valoriza corpos proporcionais, traços regulares, gestos contidos e uma aparência que busca representar um ideal de beleza, mais do que reproduzir a realidade. Segundo esses parâmetros, Stella foi o molde com o qual, por exemplo, Gerson realizou as pinturas “Vida” e “Madalena ao pé da Cruz”.

Retomando o que foi apresentado no início do texto, as musas não eram apenas moças bonitas; elas eram, elas mesmas, inteligentes e dotadas de capacidades e talentos. Stella não era uma exceção, ela era uma mulher inteligentíssima. Além de ser uma exímia musicista, tocando piano, Stella também falava francês e tinha uma bagagem cultural e de leitura muito rica, o que rendeu o livro Pensamentos de Stella, uma extensa coletânea de citações marcadas por ela.

Era interessada pelas artes, pela literatura e pelo conhecimento, e sua presença no universo de Gerson se dava também por meio das conversas, da música e das referências culturais que compartilhavam. É possível entrever uma Stella que existia para muito além de uma musa retratada nas telas, mas, sim, como uma mulher de inteligência, sensibilidade e grande riqueza interior.

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