O Estudo de Gerson sobre o Amphithéâtre d’honneur

Gerson Pinheiro, no ano de 1951, viajou à Europa para realizar um período de imersão no universo das Belas Artes, tendo Paris como um de seus principais centros de interesse, essa experiência representou um momento significativo em sua trajetória. Mais detalhes sobre essa viagem podem ser lidos aqui [inserir o link aki].

Durante sua permanência em Paris, Gerson visitou a École des Beaux-Arts, instituição fundamental para a formação artística francesa e para a consolidação dos princípios acadêmicos que, durante séculos, orientaram o ensino das artes. A visita constituiu, para o artista, uma oportunidade de aproximação com um universo de referências visuais, iconográficas e iconológicas que poderiam ampliar e aprofundar seu já vasto repertório artístico. Gerson sempre demonstrou interesse em apreender as relações entre artistas, períodos, temas, símbolos e tradições, construindo, por meio do registro e da organização dessas informações, um arquivo pessoal de referências.

Entre os espaços que conheceu na École des Beaux-Arts estava o Amphithéâtre d’honneur, um dos ambientes mais emblemáticos da instituição. O anfiteatro estava originalmente ligado às cerimônias de entrega do Grand Prix de Rome, importante distinção concedida aos estudantes que se destacavam nas diferentes áreas das artes. Ainda hoje, o anfiteatro conserva sua função cerimonial e recebe solenidades e conferências.

É nesse local que se encontra uma das obras mais significativas associadas ao espaço, o grande mural realizado por Paul Delaroche. Encomendado pelo ministro Thiers, o trabalho foi concebido especialmente para acompanhar o formato semicircular do anfiteatro e apresenta o Gênio das Artes cercado por artistas de diferentes épocas, em uma grande alegoria da história da arte e da própria tradição acadêmica. A pintura estabelecia, assim, um diálogo direto com a função do espaço, originalmente destinado à celebração dos vencedores do Grande Prêmio de Roma. Entre aqueles que ali foram coroados encontram-se nomes que se tornariam fundamentais para a história da arquitetura e da escultura francesas, como Charles Garnier e Jean-Baptiste Carpeaux.

A composição de Delaroche é particularmente significativa pela quantidade e pela diversidade de personagens representados. São setenta e cinco figuras em tamanho natural. No centro, Ictino, Apeles e Fídias, artistas associados à Antiguidade grega, aparecem como uma espécie de júri ideal, enquanto quatro figuras femininas personificam grandes períodos da história da arte: a arte grega, a romana, a gótica e a renascentista. Ao redor deles, sessenta e sete artistas parecem estabelecer entre si uma espécie de conversa silenciosa, organizados segundo uma oposição que remete às discussões próprias da doutrina acadêmica, especialmente à tradicional distinção entre o predomínio da cor e o predomínio do desenho.

Entre as figuras representadas destaca-se o chamado Gênio das Artes, personagem feminino que ocupa uma posição central e cuja fisionomia teria sido inspirada em Joséphine Bloch, modelo conhecida no ambiente artístico parisiense da década de 1840 e presença recorrente no imaginário de artistas e poetas.

A própria concepção do mural revela uma preocupação em reconstruir a história da arte por meio de uma narrativa visual. A precisão na evocação de diferentes períodos históricos, a escolha dos personagens, os detalhes dos trajes e a organização das figuras remetem à tradição de grandes composições históricas e, particularmente, à memória da Escola de Atenas, de Rafael.

Foi justamente diante dessa composição que Gerson Pinheiro parece ter exercitado uma de suas características mais marcantes, que é a atenção e o estudo minucioso. Ele fotografou toda a extensão do mural, registrando a obra de Delaroche e identificou, enumerou e escreveu o nome das figuras presentes na composição. Em seu procedimento, Gerson transformou seu momento diante da pintura em material de pesquisa, e criou um instrumento que poderia ser consultado posteriormente sempre que desejasse retomar aquela referência.

Esse conjunto de fotografias além de um registro documental de sua passagem pela École des Beaux-Arts, constitui um arquivo de estudo, elaborado a partir daquilo que o artista encontrou durante sua experiência europeia. A escolha de identificar individualmente seus personagens demonstra um interesse pela construção de conhecimento nas artes, e o esforço para apropriar-se intelectualmente daquilo que via, incorporando ao seu repertório imagens, nomes, referências históricas e relações entre diferentes momentos da História da Arte.

Gerson guardou todas essas fotografias cuidadosamente reunidas em um envelope. Durante décadas, esse material permaneceu preservado entre seus documentos e objetos, até ser recentemente aberto, o que revelou mais uma marca de sua trajetória artística e intelectual. Abaixo, seguem as fotografias tiradas por Gerson, bem como as suas anotações feitas no verso de cada uma.


Junção de todas as fotografias realizadas por Gerson, que forma uma visão panorâmica do mural.

Fotografias e anotações de Gerson.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *