Desde muito jovem, Gerson Pompeu Pinheiro teve uma profunda ligação com a música, em especial com o violino, instrumento que passou a acompanhar sua vida artística e pessoal de maneira constante.
Gerson era frequentador assíduo do Theatro Municipal, onde acompanhava as apresentações da Orquestra Sinfônica Brasileira e demonstrava um interesse genuíno pela música erudita e pelo ambiente cultural do Brasil. Entusiasta, Gerson ganhou diversos autógrafos de músicos das orquestras às quais compareceu porque, enquanto artista, o pintor também sabia reconhecer e valorizar o bom trabalho e o empenho de outros artistas.
O folder mais antigo de espetáculo musical guardado por Gerson é o Recital Guiomar Novaes Pinto, realizado no Theatro Municipal em julho de 1927. Nesse ano, Gerson tinha 17 anos e já havia iniciado sua trajetória artística como estudante da Escola Nacional de Belas Artes. Pode-se supor que foi a partir da adolescência que Gerson fortaleceu sua admiração e apreciação pela música erudita, enquanto ainda era um jovem aluno em formação e recém-chegado ao Rio de Janeiro.
Guiomar Novaes Pinto foi uma pianista brasileira que ficou especialmente conhecida por suas interpretações das obras de Chopin e Schumann e foi importante divulgadora de Villa-Lobos no exterior; Gerson compareceu ao seu primeiro concerto solo.

Mesmo mais velho e ocupado com as várias demandas presentes em sua vida acadêmica e profissional como professor e artista, Gerson nunca deixou de frequentar os espetáculos musicais que aconteciam na cidade do Rio de Janeiro. Em seu acervo há diversos flyers e folders desses concertos, porém a grande maioria corresponde aos concertos realizados no Theatro Municipal, local muito querido pelo artista. Além disso, Gerson também apresentou-se na Escola Nacional de Belas Artes em eventos célebres da Escola, o que unia seu ofício como docente e sua prática artística na música, inclusive com a célebre pianista Juliana Wagner.





Como grande apreciador da música, Gerson também estudou profundamente os instrumentos musicais, sendo o seu favorito o violino. Passava boa parte de seu tempo apreciando o instrumento, sempre o fotografava, estudava os diferentes modelos e até os pintava como itens de grande inspiração. Violinista e colecionador de violinos, o artista ampliou ainda mais sua relação com esse universo ao conhecer o luthier Luciano Rolla, reconhecido como o luthier oficial da Escola de Música, cujo ateliê se localizava na Rua das Marrecas. Foi nesse ambiente que Rolla o apresentou ao professor Santino Parpinelli, encontro que marcaria profundamente sua trajetória pessoal. A amizade entre Gerson e Santino consolidou-se ao longo da vida, transformando-se em uma parceria musical duradoura. Sempre ligado ao ambiente das artes, era natural para ele fazer amizades com outras pessoas ligadas à música, à pintura, à filosofia, entre outras áreas.


A partir dessa relação, passaram a organizar saraus musicais realizados aos sábados na residência da família, localizada na Rua Barão de Jaguaripe, no segundo andar. Esses encontros reuniam música, amizade e cultura em um ambiente acolhedor. Gerson e Santino atuavam juntos nos violinos, enquanto a irmã de Gerson, Yolanda Pinheiro, acompanhava ao piano. A esposa de Santino, Iva Parpinelli, participava ao violoncelo, completando o conjunto instrumental. Os saraus contavam ainda com a presença de convidados, entre eles amigos do Rotary e outros apreciadores de música que integravam o círculo de amizade do grupo.

Nesse ambiente, a música se tornava também um espaço de convivência social e afetiva. A esposa e musa de Gerson, Stella, participava dos encontros, apreciando as apresentações e servindo laranjada, tornando o ambiente propício para apreciar música em boa companhia. Além disso, Stella também era uma exímia musicista: tocava piano com muita inspiração. Gerson, enquanto grande apreciador da música, da arte e, sobretudo, de sua amada esposa, não poderia deixar de fotografá-la nesse momento artístico tão tocante e bonito que é o fazer música, registrando momentos em que Stella tocava o seu próprio piano, que posteriormente foi presenteado ao seu filho mais velho João Ismael. Aliás, a família mais próxima de Gerson sempre demonstrou amor pela música: Theresa, mãe de Gerson, recebeu de presente de seu marido, Giovanni Pompeo, um belo piano do século XIX, o qual presenteou sua filha Yolanda. O piano pertenceu a Yolanda durante toda a sua vida, e hoje ele integra o acervo da Casa de Cultura Gerson Pinheiro. Os dois filhos de Stella e Gerson, Luiz Otávio e João Ismael, também aprenderam piano ainda muito jovens, tendo começado seus estudos do instrumento aos 11 e 10 anos de idade, respectivamente, e tiveram aulas no curso da professora Magdalena Tagliaferro.






Essa sensibilidade musical também se refletiu em sua produção artística. Gerson realizou diversas pinturas com temas ligados à música, retratando instrumentos, músicos e atmosferas sonoras, numa tentativa de traduzir em linguagem visual aquilo que o encantava no universo musical. Em um de seus quadros mais famosos, Bach, Beethoven e Brahms, Gerson revela suas grandes admirações pela música erudita, em uma composição que mistura o instrumento musical e a inspiração proveniente do talento artístico dos grandes compositores e músicos do passado, elementos muito valorizados pelo artista. A composição entre os três arcos forma o triângulo da sabedoria, que une e equilibra os valores de sabedoria, força e beleza.




Essa vivência musical atravessou gerações dentro da própria família. O piano que fazia parte dessas reuniões, símbolo material dessa intensa vida cultural, integra hoje o acervo da Casa de Cultura Gerson Pinheiro, preservando a memória de um tempo em que a música, a arte e a convivência familiar se entrelaçavam de forma inseparável na vida do artista.
