“Uma entrevista com o architecto Lucio Costa – novo Director da Escola Nacional de Bellas Artes”

Em 1930, aos vinte anos de idade, o jovem arquiteto e artista ainda em formação Gerson Pinheiro já demonstrava um interesse singular pelos rumos da arquitetura e do ensino artístico no Brasil. Entusiasmado com a vida acadêmica e atento às transformações que então se anunciavam, procurou entrevistar Lúcio Costa logo após sua nomeação para a direção da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), marco que inaugurava uma nova perspectiva para o ensino da arquitetura no país. Naquele momento, nenhum dos dois poderia imaginar que, trinta e quatro anos mais tarde, o próprio Gerson Pinheiro ocuparia a direção da mesma instituição. A entrevista registra um momento decisivo da história da arquitetura brasileira, quando Lúcio Costa expõe, ainda no início de sua gestão, as ideias que orientariam sua proposta de renovação do ensino e sua compreensão da arquitetura como expressão indissociável da técnica, da construção e da cultura brasileira. Leia:


Uma entrevista com o architecto Lucio Costa – novo Director da Escola Nacional de Bellas Artes            

   “O Globo” no intuito de bem informar os seus leitores procurou ouvir a palavra do novo director da Escola Nacional de Bellas Artes.

               A nomeação do Sr. Lúcio Costa [?] de interesse por isso que é a primeira vez que um architecto occupa no Brasil um cargo administrativo de tal importância.

               A Escola Nacional de Bellas de alguns annos a esta parte tem experimentado um [sic] sobremaneira importante para a sua disciplina pedagógica. Trata-se de um auguento/anguento notáveldo numero de alumnos de architectura relativamente aos de pintura, esculptura e gravura, artes essas cujo ensino se fa naquelle estabelecimento.

               Procurando attender as necessidades crescentes dos alumnos de architectura, o Sr. Ministro da Educação aproveitando o ensejo [sic] pedida pelo prof. Corrêa Lima, que ali as fez uma administração discreta e productiva, nomeou um architecto, sem dúvida notável, para aquelle elevado cargo. Essa a causa do nosso desejo de conhecer as normas de administração do architecto Lucio Costa.

               Dirigimino-nos à Escola Nacional de Bellas Artes. O sumptuoso palácio em que funciona aquella casa de ensino artístico tem presentemente as suas extensas galerias  vazias em virtude das férias escolares; apenas um ou outro grupo alegre de alumnas, que frequentam o Curso de Férias, quebra o silêncio do ambiente.

               As estatuas que se vêm postadas em ambos os lados, assumem nestes dias de intensa luz, um caráter inteiramente novo, apparentando mais vida e movimento.

Foi nesse dia assim que o “Globo” quis falar a Lucio Costa.

A figura do “Philopoemen” que David d’Angers creou, collocada em frente à sala da Directoria parecia hostil às intenções do “Globo”.

               Não obstante, puzemos de parte a nossa timidez e caminhamos em busca do entrevistado.

Numa porta que abrimos, um funcionário a quem falamos uma hora de espera e eis que surge o novo director.

Lucio não permittiu que tivéssemos a primazia na saudação. Com a affabilidade extremamente symphisante(?), que constitui um dos traços dominantes na sua personalidade, veio ao nosso encontro e com um cordial abraço indagou o motivo da nossa vista.

Lucio, em primeiro “O Globo” quer felicita-lo, e em segundo transmittir aos seus leitores as suas palavras em relação ao cargo para o qual o governo o escolheu.

– Um momento por favor enquanto attendo a estas senhoras.

Esperamos-o ansiosamente, de relógio na mão, fazendo votos para que as suas interventoras não demorassem.

Felizmente pequena foi a espera e eil-o disposto a attender-nos.

– Você não acha um pouco cedo?

– Não, porque o que v. disser ao “Globo” não terá a força de um programma. Será apenas um sussurro das suas intenções.

Imperturbavel(?) emittindo suavemente as palavras elle objectou:

– Necessito de alguns dias para recompor e coordenar os meus projectos.

-Mas, pouca coisa v. dirá, como [sic] nomeação, se a escola necessita de uma reforma no ensino [sic] caso como ficaria o curso de architectura , alguma coisa sobre a necessidade da creação de uma cadeira para o ensino de História da Arte Brasileira…

interrompendo-nos com um sorriso nos lábios emoldurados por um pequeno e bem feito bigode elle ponderou:

– Mas ahi está tudo, és um verdadeiro programma ou mais, uma armadilha…

Tenha paciência volte sexta-feira que eu lhe direi alguma coisa, não gosto de prometter sem cumprir(?).

Despedimo-nos entristecidos mas não perdemos a esperança de melhor sorte na sexta-feira (que dia!…)

-.-

Sexta-feira. Duas horas da tarde. Uma espera menor do que a primeira. Lucio Costa que entra.

– Boa tarde Lucio; então, estamos exigindo o cumprimento da promessa.

– Não, não esqueci, vamos a ella. O que é que v. quer que eu diga?

– Suas impressões em relação a escola e o seu programma, isto é, as suas intenções.

– Embora julgue imprescindível uma reforma em toda a Escola, alias como é pensamento do governo, vamos falar um pouco sobre as necessidades do Curso de architectura.

“Acho que o curso de architectura necessita uma transformação radical. Não só o curso em si, mas os programmas das respectivas cadeiras e, principalmente, a orientação geral do ensino.

A actual é absolutamente falha.

A divergência entre a architectura e a estructura, a construção propriamente dita tem tomado proporções simplesmente alarmantes.

Em todas as grandes épocas as formas estheticas e estructuraes se indentificaram.

Nos verdadeiros estylos, architectura e construção coincidem. E quanto mais perfeita a coicidencia mais puro o estylo.

O Parthenon, [sic], Sta. Sophia, tudo construção, tudo honesto, tudo construção, tudo honesto, as columnas supportam, os arcos trabalham.

Nada mente.

Nós fazemos exatamente o contrario. Se a estructura pode cinco a architectura exige cincoenta.

Procedemos da seguinte maneira, feito o arcabouço simples real em concreto armado, tratar de esconder-lo por todos os meios e modas. Simulam-se arcos e contrafortes, penduram-se columnas, attarracham-se vigas de madeira às lages de concreto.

Pedra fica muito caro? Não tem importância, o pó de pedra apparelhado com as regras de estereotomia resolve o problema.

Fazemos scenographia  estylo, archeologia, fazemos casas hespanholas de terceira mão, miniaturas de castellos medievais, falsos coloniais, tudo, menos architertura.”

E traçando em poucas palavras um verdadeiro programma ele assim falou:

“A reforma visará apparelhar a Escola de um curso Technico-Scientifico tanto quanto possível perfeito, e orientar o ensino artístico no sentido de uma perfeita harmonia com a construcção. Os clássicos serão estudados como disciplina; os estylos como orientação crítica, e não para applicação directa.”

-E quanto ao chamado “colonial brasileiro”? Haverá necessidade de que se o estude no curso de architectura?

– Acho indispensável que os nossos architectos deixem a escola conhecendo perfeitamente a nossa architectura da época colonial – não com o intuito de transposição ridícula dos seus motivos, não de mandar fazer falsos móveis de jacarandá (os verdadeiros são lindos) – mas de aprehender as boas lições que ella nos dá de simplicidade perfeita, adaptações ao meio e à função e consequentemente belleza.

– E quanto as outras artes?

– O [sic] não é menor. O “Salon” por exemplo – que exprime sobejamente o nosso grao de cultura artística – diz bem do que precisamos.

“De anno para anno têm-se a impressão que as telas são sempre as mesmas as mesmas estátuas, os modelos, apenas a coleção ligeiramente varia.

Apezar do abuso da cor ter colorido gritante, julgam muitos é ser [sic] sente-se uma absoluta falta de vida, tanto interior como exterior, uma impressão irremediável de [sic] [sic].

O alheiamento em que vive a grande maioria dos nossos artistas a tudo o que se passa no mundo, é de pasmar.

Tem-se a impressão que vivemos em qualquer ilha perdida no Pacifico, as nossas ultimas creações, correspondem ainda as primeiras tentativas do impressionismo.

Todo esse movimento creador e purificador post-impressionista de Cézanne para cá é desconhecido e renegado sob o rotulo ridiculo de futurismos.

É preciso que os nossos pintores esculptores e architetos procurem conhecer seus “parti-psis” todo esse movimento que já vem de longe, comprehender  o movimento profundamente sério que vivemos e que [sic] a phase primitiva de uma grande era.

O importante prestar-lhe o espírito, o verdadeiro sentido, e nada forçar.  Eu venha de dentro para fora e não de fora para dentro, pois o falso modernismo é mil vezes peor que todos academismos.”

Estávamos satisfeitos ,

Lucio já dissera coanta coisa interessante para o publico e para os seus admiradores que são muitos.


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