“Pintura Moderna e Pintura Acadêmica são uma coisa só”, segundo o professor Gerson Pinheiro.

No ano de 1965 aconteceu a Exposição Geral de Belas Artes do IV Centenário do Rio de Janeiro, realizada na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Exercendo o cargo de diretor da instituição nesse período, Gerson Pinheiro colocou-se à frente de uma ação que buscava encerrar a disputa entre “modernos” e “acadêmicos”, os quais, segundo ele, perdiam tempo discutindo qual forma de arte seria legítima: expor todas as obras de arte em um só salão, sem distinção entre elas. Para Gerson, todas as formas de arte eram legitimas, o que realmente importava era a qualidade técnica e artística da execução das obras, independentemente do estilo ao qual pertenciam.

Portanto, essa Exposição Geral simbolizou uma tentativa de reformulação do ensino e da exposição das práticas artísticas da instituição, ao mesmo tempo em que defendia a convivência entre tradição e inovação no campo das artes plásticas brasileiras. Além disso, o posicionamento de Gerson Pinheiro refletia debates mais amplos que atravessavam o meio artístico brasileiro na década de 1960, período marcado por intensas transformações culturais e pela busca de renovação estética.



“PINTURA MODERNA E PINTURA ACADÊMICA SÃO UMA COISA SÓ”

Texto de Paolo Maranca Foto de Luis Cerasoli

Todas as modalidades de arte são válidas, seja as chamadas “modernas”, seja as chamadas “academicas” — declarou ao reporter o professor Gerson Pompeu Pinheiro, diretor da Escola Nacional de Belas Artes — o que importa é o nivel da obra; esta é a opinião de todos os pintores, professores e críticos atualizados, no mundo todo. A separação, que caracteriza os salões oficiais realizados no Brasil, não se justifica mais e vem prejudicando visivelmente o desenvolvimento de nossas artes plásticas. É por isso que, ao planejarmos a Exposição Geral de Belas Artes do IV Centenário do Rio de Janeiro, para setembro, em colaboração com a Secretaria de Turismo da Guanabara, resolvemos eliminar estas diferenças, aceitando trabalhos de todas as tendências, até a “abstrata”, fazendo um unico salão, em que o objetivo da seleção e da premiação será exclusivamente a qualidade dos trabalhos. E’ esta, penso eu, a primeira vez que se toma a atitude corajosa de afirmar, através de uma realização, que a arte é uma só”.

Prof. Gerson Pompeu Pinheiro, quando falava à reportagem.

A EXPOSIÇÃO GERAL

As inscrições para a Exposição Geral estarão abertas na secretaria da Escola Nacional de Belas Artes, à rua Araujo Porto Alegre, na Guanabara, de 5 a 25 de agosto. A mostra terá secções de arquitetura, pintura, escultura, gravura, desenho e artes decorativas; a comissão organizadora será escolhida pela congregação da escola; os vários juris serão designados pela comissão; haverá valiosos prêmios para todas as secções, medalhas e um grande prêmio de honra para o artista que conseguir unanimidade de todos os juris; a premiação será feita antes da inauguração, menos este último prêmio, a ser concedido uma semana após a abertura.

LIDERANÇA

O prof. Gerson Pompeu Pinheiro, que já foi diretor da escola de 1958 a 1961, reassumiu em agosto por vontade da congregação, que o reelegeu, diante da expectativa de uma gestão produtiva e operosa, num ambiente de harmonia e de desenvolvimento. O prof. Pinheiro, assessorado por uma equipe da escola, preparou um projeto de reforma do ensino, visando a eliminação das contradições existentes entre as duas correntes, moderna e academica. Esta reforma deverá ser posta em execução ainda este ano e a Exposição Geral é, como afirma o próprio diretor da E.N.B.A., “a realização prática da intenção, desta diretoria de atualizar o sistema de ensino, no sentido de dar ao Brasil uma grande escola de arte, a grande escola de arte que teve nos séculos passados, na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro”.

Desta forma, o prof. Pinheiro se coloca na liderança de um movimento que há anos luta “pela melhoria das escolas e dos salões oficiais, cujos defeitos são devidos a uma série de equívocos, o principal dos quais é sem dúvida esta distinção que algumas pessoas fazem entre a pintura “moderna” e a pintura “academica”, diferença que só existe para os que desconhecem o problema e para os que dela tiram vantagens”.

Diario de S. Paulo
S. Paulo, 17.01.65

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