Entrevista de Gerson sobre o estado da arte e da Escola de Belas Artes

Nos documentos pessoais de Gerson Pinheiro, encontra-se a transcrição das respostas concedidas por ele a um questionário elaborado pelo arquiteto Flávio de Aquino.

Pelo teor da resposta final de Gerson, deduz-se que o questionário foi publicado no Jornal Manchete. Embora não haja uma datação precisa no documento, é provável que tenha sido realizado no final da década de 1960 ou durante a década de 1970, pois a antiga Escola Nacional de Belas Artes já havia sido reformulada, dando lugar à atual Escola de Belas Artes.

No questionário, Gerson revela uma postura conciliadora e apaziguadora em relação ao embate entre artistas de estilo acadêmico e moderno, grande polêmica da época. Para o professor, o essencial era que o artista tivesse conhecimento e liberdade para criar, sem a necessidade de se prender a um estilo específico, desde que atentasse à qualidade técnica na representação das formas que pretendia realizar e ao espírito criador, inerente ao ser humano.

Como era característico, Gerson expressou grande apreço pela Escola de Belas Artes, citando grandes nomes formados por ela, como Niemeyer e Lúcio Costa. Curiosamente, destacou que muitos artistas modernos haviam sido formados por métodos acadêmicos, defendendo que o impulso artístico individual pode transcender a linguagem de aprendizado.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

ESCOLA DE BELAS ARTES

RESPOSTAS DE GERSON POMPEU PINHEIRO

AO QUESTIONÁRIO QUE LHE FOI PROPOSTO POR FLÁVIO DE AQUINO

1. P – Que época da pintura tem a sua preferência? Por quê?

R – Minha preferência não se situa propriamente em determinada época ou escola, e sim em  referência a artistas que embora pertencentes a épocas diversas, guardam entre forte laço de parentesco artístico.

Tenho verdadeiro encantamento por Piero Della Francesca pintor do sec. XV, por Georges de La Tour do século XVII, por Ingres do sec. XIX, bem como por algumas obras do discutido Picasso, embora o número dos artistas que  admiro seja muito maior. Assim, é evidente que não é a ou a época que me atrai particularmente, e sim, certa forma de interpretar, característica de alguns pintores.

Aprecio sobremodo a linguagem plástica daqueles que dizem grandes coisas com palavras singelas. A monumentalidade de Piero, a simplicidade de Georges Latour, o classicismo olímpico de Ingres, a expressão comovedora de Picasso das fases azul e rosa.

2. P – O nu artístico ainda tem lugar na pintura de hoje? Por que?

R – É evidente que a resposta deverá ser afirmativa, pois, do contrário eu seria escravo de preconceitos artísticos, limitação que não se coaduna com o amor que voto à liberdade de criação.

Gostaria apenas de fazer uma pequena ressalva à expressão “nu artístico”, eis que, ela pode oferecer-nos um conceito falso com relação à idéia que pretendemos exprimir parecendo referir-se a vulgares fotografias de mulheres despidas em atitudes tão do agrado de um certo público que nada sabe de arte.

A criatura humana foi realizada sem roupas por Deus, assim como uma flor nos parece mais bela no pé e no ambiente silvestre em que desabrochou do que num vaso artificialmente arrumado, um corpo humano, de mulher ou de homem, é mais belo como Deus o fez e não como os figurinistas o cobrem.

3. P – Existe o chamado academismo? Por quê?

R – Academismo e modernismo são classificações devidas aos críticos, que as criaram para melhor distinguir artistas que usam linguagens diversas para exprimir suas emoções.

No anseio de perfeição que existe em toda atividade humana, também nas artes, foi-se formando um corpo de doutrina, uma sistemática que gerou o que se costuma chamar academismo. Arte só pode existir em função de um processo em que a característica maior é a espontaneidade, logo aqueles que se subordinam a normas, quaisquer que sejam, de “academismo” ou “modernismo” cada vez mais se afastam do ideal de arte.

É claro que existe o academismo como consequência imperfeição humana.

4. P – Acha que o mundo de hoje pode ser expresso através de uma arte tradicional? Como e Por quê?

R – Admitir uma resposta afirmativa seria esposar um tremendo paradoxo. Tradição é mais do que respeito, volta ao passado pela repetição de seus hábitos e costumes. De sorte, não se pode conceber seja o mundo de hoje expresso pela arte do passado.

Todavia, não exageremos. Emocionalmente, o homem de hoje não é tão diferente do homem de três, quatro ou mais séculos passado. Pois, se o fôssemos não toleraríamos a escultura grega do V sec. A.C., os mosaicos medievais de Bizâncio, os afrescos de Giotto ou de Fra Angélico, as magníficas criações da música barroca, com Vivaldi, Bach, Purcell e outros ou as criações românticas de Sehuman e de Brahms.

5. P – Que acha da arte de Picasso? Da arte de Cézanne?

R – Picasso, já o afirmei, é autor de algumas das obras primas de pintura em todos os tempos. Não o considero, todavia um artista que tenha se colocado sempre num nível elevado de produção. Talvez por que o seu temperamento inquieto assim o imponha. Por outro lado, considero que suas exageradas preocupações políticas sacrificam a dignidade de sua criação artística.

Cézanne é um dos maiores pintores do mundo. Sua obstinada sinceridade é revelada em paisagens, naturezas e retratos. Anote-se, a título esclarecedor, que os seus nus femininos não eram por ele considerados obras satisfatórias. Pintou-os de cor, para atender ao estreito preconceito da província que não admitia posasse para o pintor uma mulher inteiramente despida. A admiração leviana de alguns levou a erigir em modelo de arte, obras que não chegaram a ser, para o autor, mais do que simples tentativas.

6. P – Qual a sua opinião sobre a arte abstrata, a pop-art, a arte cinética (arte de movimento e luz)?

R – Sobre arte abstrata já manifestei-me abundantemente na aula de Sapiência, que proferi na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1966, quando se iniciaram, por essa forma,as comemorações do Sesquicentenário da Escola que tenho a honra de dirigir. Interessa-me apenas como decoração. Se a compararmos com a música, abstrata por sua própria natureza essencial, diremos que um quadro abstrato corresponde a apenas um fragmento da composição musical. A sucessão de sons que associa o movimento à obra de criação musical é que dá sentido à sua mensagem. É assim que, disse eu, naquela aula: o calidoscópio realiza, até certo ponto, o que do desejaríamos encontrar na arte abstrata associada ao movimento. Walt Disney em “Fantasia”, feito há muitos anos, realizou obra de arte visual com as características que julgo imprescindíveis para o abstracionismo.

Desse ponto de vista, considero conduzidas, no rumo certo, as pesquisas dos que buscavam a arte cinética.

Relativamente ao que se denomina pop-art não encontro a mais remota defesa para os objetos de sua criação. Não há muito tempo a revista GAM publicou foto de um quadro que embora recoberto em toda a sua superfície com ratoeiras, numa das quais estava preso um rato morto…

7. P – Qual a sua principal fonte de inspiração?

R – A Natureza, em todos os seus domínios: o céu, a terra, o mar e tudo que neles existe por obra da Vida Universal e não por obra humana.

8. P – Qual o pior defeito do artista chamado “moderno”?

R – É precisamente a preocupação de ser “moderno”. Se ele for moderno tão somente por que possua originalidade, tal que o destaque dos que o precederam, não será portador de qual quer defeito.

Ser “moderno” para obedecer à moda, esse é o defeito a ser apontado nos setores da arte.

9. P – Qual a melhor maneira de formar-se um pintor?

R – Só existe uma: ensinar ao futuro pintor tudo quanto possa ser posto a serviço de sua capacidade criadora na pintura; as normas artesanais do ofício, o aprimoramento dos seus meios de expressão gráfica, através do estudo do desenho e de sua gramática (a perspectiva), da anatomia humana e animal, da pintura em suas várias técnicas, da composição e aconselhar-lhe, para sempre, a constante renovação do sua cultura geral, por meio de leituras e de viagens.

10. P – Quais as virtudes do ensino acadêmico?

R – Se houver um ensino dito acadêmico ele nada poderá produzir de bom. O ensino artístico terá que ser eminentemente neutro: nem “acadêmico” nem “moderno”, eis que, um e outro seriam cerceadores do gênio criador na arte.

Entretanto, se a pergunta visa conhecer a minha opinião acerca do ensino feito dentro das normas sistematizadas das academias ou escolas, por exemplo de Belas Artes, acredito que o simples exame do que elas têm produzido responde melhor do que as minhas palavras.

Basta recordar que passaram pela nossa Escola, como alunos, alguns dos nossos mais robustos artistas criadores: Portinari, Burle-Marx, Lúcio Costa e Niemeyer foram nossos alunos. A sistemática do ensino que receberam em nada comprometeu sua capacidade artística.

11. P – Que modificações se poderia acrescentar ao ensino das Belas-Artes?

R – Tudo indica que a nossa Escola em sua próxima reforma, deva acolher em seu seio o ensino da arte para a indústria. Já possuímos algumas atividades dessa ordem, mas estou convencido de que esse será o bom caminho a percorrer.

Conheço de longa data os dirigentes de “Manchatte” e por mais que tenha solicitado sua atenção para nossa Escola alguns dos seus mais gloriosos momentos de vida como por exemplo no sesquicentenário, nada obtive. Se alguma coisa pudesse pedir neste final de entrevista que fosse esta grande revista a responsável por um movimento de divulgação das atividades da Escola de Belas Artes para que se possa admirar o dedicado trabalho que mestres e alunos ali realizam em favor da cultura no Brasil.

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