“O Pássaro Ferido” é um causo escrito por Gerson Pinheiro após um acontecimento interessante durante a aplicação de uma prova para sua turma de Estética. Aos 67 anos, apenas um ano antes de seu falecimento, Gerson ainda lecionava na Escola de Belas Artes e, adicionalmente, nutria cuidado e apreço por seus alunos. Isso fica evidente nas descrições detalhadas e atenciosas com as quais ele retratou cada um dos presentes naquele dia. Gerson transformou um simples dia de prova em uma bela história digna de ser contada. Eis O Pássaro Ferido:

Dez horas. O professor entra na sala para dar a prova mensal de Estética. Os alunos já se encontram em seus lugares e correspondem com um aceno de cabeça ou com um espontâneo sorriso ao cumprimento do mestre. No quadro-negro são escritos os quesitos e, antes de dar inicio ao teste, o professor esclarece cada uma das questões propostas.
Faz-se um completo silêncio… Uma jovem descalça os graciosos tamancos que lhe protegiam os pés e cruza as pernas, em atitude oriental, sobre o assento da cadeira… Alguns acendem os cigarros em busca de um escape para a sua preocupação… No fundo da sala, quase isolado, num canto, um jovem de belo perfil masculino apoia a fronte com a mão direita, como que convocando tudo que sabe sobre a matéria para fazer boa prova.
O silêncio permite ouvir o ranger do assoalho de frizo quando alguém muda sua posição na cadeira… De vez em quando soa longínquo o motor de algum automóvel… Silêncio completo…
Subitamente, ouve-se o cantar cristalino de um pássaro dentro da sala… Vem do alto… todos interrompem o que estão fazendo para o inesperado cantor! É um pássaro pousado na barra mais alta do basculante junto ao teto.
Terminada a bela “aria” diz o professor: “provavelmente ele veio para inspirar-los; é quase uma cola, uma vez que estamos fazendo um teste de Estética”. Todos sorriem ante o imprevisto e o comentário por ele suscitado e os alunos retomam os seus escritos. O pássaro voa para o exterior… Novo silêncio… As canetas deslizam sobre as folhas de papel… Porém, novamente, surge o cantor, mas agora, ao invés de cantar, ele pia insistente e plangentemente. Observam-nos os presentes. Então o pássaro se lança ao espaço, mas no interior da sala; depois de um volteio retorna ao ponto de início da curva descrita e, com leve bater de asas, baixa numa vertical até o piso… Os que estão mais próximos vêem a causa de sua estranha trajetória: bem no encontro da parede com o solo, junto ao rodapé, está encolhido, quase imóvel, um pássaro robusto que tem a cabecinha ferida em sangue. Tudo se passa num instante e o visitante fugindo à curiosidade dos que testemunharam sua incursão, alça voo para o exterior da sala. O aluno que estava lá no fundo comenta, ante a curiosidade do mestre: “É a fêmea em busca de seu companheiro ferido”. Reinicia-se a prova, por duas vezes interrompida, e o professor, penalizado com o sofrimento daqueles dois amantes, sem que os alunos notassem, recolhe sobre uma folha de papel o pássaro enfermo para colocá-lo sobre o peitoril onde, mais facilmente, a sua companheira poderia socorrê-lo.
Ela retorna, mas, receosa da ação do homem, que só deseja minorar seu sofrimento, pousa longe, nos peitoris de outros vãos da mesma sala. Salta de um para outro, piando, piando… e não se anima a pousar naquele onde fora deixado o seu amado.
O tempo vai passando… os alunos começam a entregar suas provas. Ora uma moça, em seguida duas outras, agora um rapaz e… assim… ao término do tempo, só restavam no ambiente silencioso o professor, uma aluna retardatária e… o pássaro ferido. Sem ser percebido, o velho professor se aproxima do bichinho, põe os óculos, e como que desejando insuflar vida e saúde ao passarinho, sopra suave e continuamente sua cabeça e seu corpo. As penas se eriçam ao sopro carinhoso do amigo homem e o pássaro move a cabecinha, dá uns passos e salta do peitoril para o beiral da lage pelo lado de fora.
Sem demora, surge a sua companheira que, receosa da observação a que estava exposta, vai saltitando para junto do pequeno ser que fora buscado com tanta ansiedade. O encontro é marcado por pios de um e de outro e a fêmea bica carinhosamente o corpo do companheiro. Este se estremece, levanta a cabecinha, vai saltitando até a beirada da lage e, surpreendentemente, seguido pela sua dedicada companheira, lança-se ao espaço, equilibrando num tímido bater de asas a sua descida em direção ao arvoredo, lá embaixo, onde, com certeza, o amor teve forças para completar a cura do pássaro ferido.
Os ponteiros do relógio estavam juntos sobre as doze horas. O professor pede a prova da retardatária e ela, muito feliz, comenta: gosto tanto da matéria que se tivesse mais tempo continuaria escrevendo…
Estava terminado o 2º teste de Estética II, da turma BAB, no 1º período letivo de 1977…
Rio de Janeiro, 26 de abril de 1977

